segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Tio Toninho e Espraiado

 

Há muito que se falar de Antônio Sellitti Rangel, ou simplesmente, como toda a família chama, TONINHO.

Todos têm um depoimento a prestar sobre ele. Mas, neste início eu desejo, apenas, contar uma história dele comigo e que constará no meu livro Diário de um Transtornado, para dizer da GRANDEZA deste homem, que nos orgulha muito. Pois, ele me recebeu em seu sítio em Espraiado (Maricá) em um momento muito delicado e cedeu-me uma casa para morar, graciosamente. 

Eu havia acabado de ser aposentado por invalidez e meus vencimentos foram reduzidos em 70%. Isto tornou minha vida totalmente insustentável onde eu morava.

Ao me acolher, Tio Toninho possibilitou que eu me reorganizasse. Ele me salvou, literalmente, naquele momento em que eu estava mais desesperado. Embora eu continuasse a ter crises sérias, não houve mais necessidade de internações. Ligia controlava estes momentos muito bem.

Isto dá a dimensão da importância do apoio da família e da presença de um profissional de confiança no processo de superação dos problemas criados. Era um momento tão difícil que Tio Toninho teve o cuidado de consultar minha médica se eu poderia ficar lá.

Como disse, em Espraiado tive algumas crises ainda, apesar da tranquilidade do local que eu amava. A solidariedade e paciência de Tio Toninho permitiu que aos poucos eu fosse me fortalecendo.

Permaneci por um tempo, com a ajuda dele, até refazer minhas finanças, mais ou menos, e voltar para Niterói, mas, desta vez fui morar com a minha mãe, Regina Martha Aarão Rangel. No início foi difícil esta situação. Nós tivemos que, aos poucos, reaprender a viver sob o mesmo teto. Ainda vivo com ela, até hoje.

Tio Toninho, que completou 90 anos em 2021 é uma espécie de Patriarca da Família. Todos ficam impressionados com sua vitalidade e energia. Sempre envolvido em vários projetos. Não para em momento algum. É, poderíamos dizer um viciado em trabalho. Faz de tudo. Tem uma sede de aprender que o faz, em pouco tempo, adquirir várias habilidades.

Apenas estar na presença dele nos faz bem.

Construiu, aos poucos, uma casa que é um verdadeiro hotel para receber a família. Várias suítes, uma para cada irmão ou família.

É lá, normalmente, que nossa família se reúne quase todos os anos. Eu disse a ele, recentemente, que queria passar o final de ano lá e se estava tudo bem pra ele. Ele me respondeu:

- Já ouviu falar em "coração de mãe"? Minha casa é parecida...

Eu sabia que nem precisava perguntar, pois, sei que a qualquer momento que eu lá chegasse ele me receberia com este “coração de mãe”.



quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Madrinha de Todos

Sinceramente, eu tenho até dificuldades de falar de Regina Maria Rangel Zanetti, minha Madrinha, aliás Madrinha de todos nós. Era tão especial e luminosa esta criatura que qualquer adjetivação é pobre para descrevê-la. 
Vou apresentar, portanto, agora, dois textos: um de Renata Raemy Rangel, outro da própria Madrinha Regina dirigida a mim. 






A Renata apresentou uma memória linda. Aliás, esta minha prima tem uma paixão pelas histórias da família invejável, e tem o dom de escrever.

Por Renata:

Hoje, uma neta de minha tia Regina Maria (filha de Alcino de Abreu Rangel) me pediu que eu enviasse, à ela, um depoimento sobre a pessoa da avó dela.

Vou publicar, aqui, o depoimento enviado. Penso que é um relato legal para os primos. Vamos ao texto, então:

"Elisa,

Falar de sua avó Regina Maria é sempre um grande prazer para mim. Era, sem dúvida alguma, a tia que eu mais amava. Eu adorava estar com ela, conversar, ouvir seus conselhos e principalmente olhar para os olhos dela, os quais sempre continham uma luz inigualável, Mas atente, os olhos dela não refletiam uma luz que eles estivessem captando do exterior. Os olhos dela eram a janela da luz que ela trazia em seu interior.

Minha tia jamais falou mal de alguém pelo menos que recordo. Ela discordava de certos pensamentos e atitudes e, contra eles, era firme mas sem perder a candura.

Meus pais a escolheram para ser a minha madrinha de Crisma. Quando me crismei, ela não pode vir ao Rio. Foi uma pena! Mas eu a considero como tendo sido.

Sua avó era aquela que escutava sem julgar. Ela tinha a capacidade de ouvir por horas e continuar ao seu lado como se a conversa tivesse acabado de começar.

Quando as pessoas dizem que ela era uma santa, eu realmente acredito. Ela foi a pessoa que mais próximo de Deus esteve. Ao menos se comparada aos demais de nossa família.

Quando ela morreu, eu escrevi um texto para o Encontro de Família em que eu me referia a ela como sendo um anjo, pois ela era uma verdadeira mensageira da paz.

Ela era a tia que protegia. Que defendia. Que acolhia. Diferentemente de tia Maria ou tia Terezinha, não obstante serem tias muito boas, também. Mas sua avó era diferente.

Vou te contar um episódio que ocorreu no aniversário de 15 anos de Agnes. Houve uma festa muito bonita. A nova casa de seus avós (a que você conheceu) tinha acabado de ser construída, mas eles ainda residiam num casarão antigo muito bonito, onde todos os irmãos e sobrinhos estavam hospedados. 

Pois bem, para acesso à dita casa tínhamos que subir uma escadaria bem íngreme e que não tinha proteção lateral. Ou seja, se bobeássemos, cairíamos numa ribanceira sem fim.

Após a festa da Agnes, o Marquinho (filho do tio Elmo) levou os primos a Conduru para um forró. Ao voltarmos (Cláudio José, Paulo Roberto, Ronaldo, Rachel, Tânia e eu), fomos surpreendidos com uma brincadeira de mau gosto por parte do Cláudio. Ele se antecipou e se escondeu atrás da porta, para nos dar um susto. Essa porta ficava na cabeceira da escada. Pois bem, quando subíamos a escada, com cautela para não cairmos, eis que surge o Cláudio e nos prega um baita susto, fazendo com que todos nós tomássemos um tombaço.

Nós íamos pegar o Cláudio pra valer. A raiva de todos era muito grande. A tia percebendo a nossa intenção disse (ela não gritou):"ninguém toca a mão no Cláudio".

E nós todos obedecemos, não obstante tentarmos explicar que ele tinha provocado a queda de todos na escada e todos nós estávamos machucados.

Sua avó mandou o Cláudio ir para o quarto e ficou fazendo nossos curativos. Enquanto ela fazia o curativo em meu braço, eu disse: "Não sabia que você preferia a ele". E tia Regina disse: "Não prefiro". No que eu perguntei: "Então, porque você o protegeu desta forma?" No que ela respondeu: "Eu protegi vocês, Renata. Se eu não tivesse impedido, vocês todos estariam arrependidos de ter batido em um primo".

Essa era sua avó! O tipo de mulher capaz de perceber que todos nós iríamos amargurar a dor do arrependimento se tivéssemos machucado um primo, considerado como irmão.

Bem, a verdade é que não dá para falar tudo sobre a tia, num único texto. Eu sinto muito a falta dela. Talvez você não saiba, mas ela era muito próxima do papai. Ela chegou a residir um período no Rio, na casa de meus pais. O Ricardo sempre diz que ela foi a segunda mãe dele.

Eu sinto falta da voz cândida da tia. De seus figos cristalizados. De sua presença amiga e acolhedora. De sua risada quase tímida. Enfim, sinto muita falta.

No momento é o que eu consigo escrever. Beijos.


Depois deste belíssimo texto da Renata, vou transcrever um texto da própria Madrinha Regina, desta vez dirigida a mim. Acredito que muitos tenham registros como este. Mas, por este texto dela vocês podem, assim como no depoimento da Renata, que mulher maravilhosa ela era. Este texto que apresentarei é a dedicatória que ela me fez ao me presentear com o livro "Maria, Maria", do Tio Paschoal Rangel, que versa sobre a Ladainha de Nossa Senhora, e que, curiosamente, muitos anos depois resolvi produzir um trabalho, provavelmente, aliás, certamente, inspirado neste livro,


Claudinho, 

a vida é uma luta constante, só demonstramos que estamos vivos se buscarmos, sem tréguas, nosso ideal. Não importa a idade...
O ideal do ser humano é a Perfeição = Deus = Amor. Na busca meio desordenada deste ideal, às vezes, somos exemplo.

É muito gratificante saber disto, principalmente porque Cristo disse: "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de um alqueire, mas sim sobre o candeeiro, a fim de que ilumine a todos que estão em casa." (Mt 5, 14-15)

Claudinho,

obrigado pelas palavras e pela lembrança tão espontânea, primeira que me foi ofertada por um afilhado. Muito bom, mesmo.

Sua Madrinha, Regina, que pede as bênçãos de Deus e de Maria por você.



Tio Genaro escreveu uma poesia para Madrinha Regina que a Renata musicou. Ambas belíssimas.



EPITALÂMIO

Regina Maria,
Maria rainha
Da curva do rio
De águas dolentes
Que levam angústias
Que lavam tristezas,
__  A tua tristeza __

Geraste segredos,
Guardaste segredos
Detrás desta névoa
Que carrega nos olhos,
Na voz
E nos gestos.

Só hoje desvendas
Teus ciosos mistérios
Para dá-los inteiros
Às mãos que acharam
Tuas mãos certo dia.



Renata (música e voz) - Marina (Edição de Imagem)







terça-feira, 9 de novembro de 2021

Poetas e afins

Diz a etimologia da palavra poesia que deriva de "poesis" (Latim), mais anteriormente ainda do grego "poiesis", de "poien" (criar), fazer ou construir algo. Há diferentes interpretações e relevos dados ao ato da produção poética de acordo com diversos filósofos. Aristóteles, por exemplo, considerava a poesia como um dos caminhos que leva à plenitude da alma humana. Platão, por outro lado tinha severas censuras em relação à poesia que considerava uma fuga do verdadeiro conhecimento, a Filosofia.

Seja como for, a poesia está presente na história desde tempo imemoriais.

Mas, enfim, tal discussão não é de interesse para os efeitos deste pequeno texto. O fato, que interessa, é que vários membros da Família Sellitti Rangel são poetas e produziram obras muito belas. Algumas delas são apresentadas, aqui, particularmente as relacionadas com as nossas raízes: Castelo.

Comecemos com Paschoal Rangel:

As Falas do Meu Rio

Calem-se agora todas as vozes.

Deixem-me ouvir as falas do meu rio.

Deixem-me ouvir estas águas sobre as pedras...

As palavras dos homens são artificiais e dúbias,

mas as falas do meu rio

são claras e frescas como carne de criança.

Rio Castelo entorna as suas águas longas e mansas,

longas e mansas, longamente.

As  ondinas erguem-se ao sopro suavíssimo

das brisas da tarde.

(Há sílfides e zéfiros nas tardes desse rio...)

Mas lá em baixo,

quando chega às rochas negras,

ele se encachoeira todo e solta a voz

num fortíssimo de cantata.

Aquelas falas molham-me de infância.

Sou mais menino do que fui.

A cabeça povoa-se de outroras

e caminho entre sombras de recordações:

as amoreiras estão outra vez carregadas de amores nonatos,

as ruas contam estórias de encontros não havidos,

e aquele figurinha de femininas formas apenas se esboçando,

e o homem forte, meu avô, meu herói...

Saudades informes,

emoções idas reexistidas,

e eu - comovidamente -

na véspera de um poema.

O rio escorre sombras e memórias

nessa tarde única e qualquer.



Genaro Rangel, que nos deixou prematuramente, poeta de verve invejável também registrou poeticamente nossa terra de raíz:


Castelo

Castelo

É uma curva de rio

fluindo em sortilégios

e transformando em remansos

saudades antigas.

As praias tão brancas

quanto a minha infância.

- Praia e infância -

Ambas levadas no aluvião.

Castelo

É um canto de rua

de terra vermelha

e uma casa tranquila

de altos porões.

- A rua e a casa -

Ambas mudaram.

Não mudou a lembrança.

Castelo

É um quintal sossegado

e são velhas mangueiras

de sombras banhadas

nas águas do rio.

Menino cismando

sonhos deslumbrados.

- Sonho e menino -

Ambos sentados nos galhos quietos.

Castelo

´É uma noite de lua

e meninas de tranças

cantigas de roda

girando na rua.

Garotos descalços

brincando de barra.

Garotos e tranças

casaram e mudaram.

- A lua e as cantigas -

São coisas antigas.

Castelo

É um homem sereno

de profunda ternura

disfarçadas em pigarros

e jamais consentida

senão nos lampejos

dos seus olhos azuis.

E uma mulher corajosa

cercando de amor

a casa e o rio,

a rua e a infância

e as cantigas de roda.

- Papai e mamãe -

No castelo das remembranças.


E temos, também, o filho homem caçula de Alcino e Rosa, José Sellitti Rangel, meu pai, poeta bissexto, de profunda sensibilidade escondida em pragmatismo, também cantando suas memórias da terra natal:


Castello

É o trem de ferro das três e quinze,

O viradouro em frente à igreja,

O Juvenal, maquinista matreiro,

Com sua enorme moeda de prata servindo

De chaveiro,

A apostar carreiras com os "fordecos"

Em sua reluzente "Maria-fumaça".

Chegou o trem de ferro, chegou...

É terça, é quinta, é sábado?

Que hora temos? Três e quinze.

Está no horário, chegou certinho,

Não atrasou em Coutinho.

Com o trem de ferro cheguei também,

É terça, é quinta, é sábado?

Não sei.

O trem acabou,

Não há mais "fordecos", Maria-fumaça sumiu,

Onde estará a moeda de prata?

Castello, mudou, virou Castelo,

Por outros mundos andei,

Que sei?

O trem voltava às três e quinze,

E eu, será que voltarei?


Também de José, a inspiração e o respeito reverencial de todos nós


ROSA

Setenta verões passados entre nós,

Nos quais se curtiam as forças

Que nos tentou transmitir.

Pele morena, sedosa,

Requinte que muitos querem,

Mas precisam de bisturi.

Os afazeres da casa,

Cozinha, horta e jardim,

Não lhe tomavam o tempo

Que sempre tinha, para seus nove guris.

Setenta outonos,

Entre flores, frutos,

Onde prevaleciam as mangueiras,

Espalhadas pelo quintal,

Sempre limpo como o mais,

Que lhe não tomavam o tempo

Que sempre tinha

Para música, romances e poemas.

Setenta invernos,

Entre amigos e parentes,

Que não deixavam de enchar-lhe

A casa no canto da rua (na curva do rio);

Que a respeitavam sempre,

Por sua atitude coerente,

Que, por sinal, para a gente,

Transmitiu-se intensamente.

Setenta primaveras,

Vividas, uma a uma,

Com intensidade sóbria,

E sempre no convívio das rosas,

Que Rosa era você.

Setenta e quatro anos vividos,

Um pouco também sofridos,

Mas muito mais de alegrias e de amores,

Compartilhando com aqueles,

Que demonstrou, já no fim,

A forma de esperança,

Que gostaria em mim.








________________ Cláudio Rangel, 10 de Novembro de 2021.