terça-feira, 9 de novembro de 2021

Poetas e afins

Diz a etimologia da palavra poesia que deriva de "poesis" (Latim), mais anteriormente ainda do grego "poiesis", de "poien" (criar), fazer ou construir algo. Há diferentes interpretações e relevos dados ao ato da produção poética de acordo com diversos filósofos. Aristóteles, por exemplo, considerava a poesia como um dos caminhos que leva à plenitude da alma humana. Platão, por outro lado tinha severas censuras em relação à poesia que considerava uma fuga do verdadeiro conhecimento, a Filosofia.

Seja como for, a poesia está presente na história desde tempo imemoriais.

Mas, enfim, tal discussão não é de interesse para os efeitos deste pequeno texto. O fato, que interessa, é que vários membros da Família Sellitti Rangel são poetas e produziram obras muito belas. Algumas delas são apresentadas, aqui, particularmente as relacionadas com as nossas raízes: Castelo.

Comecemos com Paschoal Rangel:

As Falas do Meu Rio

Calem-se agora todas as vozes.

Deixem-me ouvir as falas do meu rio.

Deixem-me ouvir estas águas sobre as pedras...

As palavras dos homens são artificiais e dúbias,

mas as falas do meu rio

são claras e frescas como carne de criança.

Rio Castelo entorna as suas águas longas e mansas,

longas e mansas, longamente.

As  ondinas erguem-se ao sopro suavíssimo

das brisas da tarde.

(Há sílfides e zéfiros nas tardes desse rio...)

Mas lá em baixo,

quando chega às rochas negras,

ele se encachoeira todo e solta a voz

num fortíssimo de cantata.

Aquelas falas molham-me de infância.

Sou mais menino do que fui.

A cabeça povoa-se de outroras

e caminho entre sombras de recordações:

as amoreiras estão outra vez carregadas de amores nonatos,

as ruas contam estórias de encontros não havidos,

e aquele figurinha de femininas formas apenas se esboçando,

e o homem forte, meu avô, meu herói...

Saudades informes,

emoções idas reexistidas,

e eu - comovidamente -

na véspera de um poema.

O rio escorre sombras e memórias

nessa tarde única e qualquer.



Genaro Rangel, que nos deixou prematuramente, poeta de verve invejável também registrou poeticamente nossa terra de raíz:


Castelo

Castelo

É uma curva de rio

fluindo em sortilégios

e transformando em remansos

saudades antigas.

As praias tão brancas

quanto a minha infância.

- Praia e infância -

Ambas levadas no aluvião.

Castelo

É um canto de rua

de terra vermelha

e uma casa tranquila

de altos porões.

- A rua e a casa -

Ambas mudaram.

Não mudou a lembrança.

Castelo

É um quintal sossegado

e são velhas mangueiras

de sombras banhadas

nas águas do rio.

Menino cismando

sonhos deslumbrados.

- Sonho e menino -

Ambos sentados nos galhos quietos.

Castelo

´É uma noite de lua

e meninas de tranças

cantigas de roda

girando na rua.

Garotos descalços

brincando de barra.

Garotos e tranças

casaram e mudaram.

- A lua e as cantigas -

São coisas antigas.

Castelo

É um homem sereno

de profunda ternura

disfarçadas em pigarros

e jamais consentida

senão nos lampejos

dos seus olhos azuis.

E uma mulher corajosa

cercando de amor

a casa e o rio,

a rua e a infância

e as cantigas de roda.

- Papai e mamãe -

No castelo das remembranças.


E temos, também, o filho homem caçula de Alcino e Rosa, José Sellitti Rangel, meu pai, poeta bissexto, de profunda sensibilidade escondida em pragmatismo, também cantando suas memórias da terra natal:


Castello

É o trem de ferro das três e quinze,

O viradouro em frente à igreja,

O Juvenal, maquinista matreiro,

Com sua enorme moeda de prata servindo

De chaveiro,

A apostar carreiras com os "fordecos"

Em sua reluzente "Maria-fumaça".

Chegou o trem de ferro, chegou...

É terça, é quinta, é sábado?

Que hora temos? Três e quinze.

Está no horário, chegou certinho,

Não atrasou em Coutinho.

Com o trem de ferro cheguei também,

É terça, é quinta, é sábado?

Não sei.

O trem acabou,

Não há mais "fordecos", Maria-fumaça sumiu,

Onde estará a moeda de prata?

Castello, mudou, virou Castelo,

Por outros mundos andei,

Que sei?

O trem voltava às três e quinze,

E eu, será que voltarei?


Também de José, a inspiração e o respeito reverencial de todos nós


ROSA

Setenta verões passados entre nós,

Nos quais se curtiam as forças

Que nos tentou transmitir.

Pele morena, sedosa,

Requinte que muitos querem,

Mas precisam de bisturi.

Os afazeres da casa,

Cozinha, horta e jardim,

Não lhe tomavam o tempo

Que sempre tinha, para seus nove guris.

Setenta outonos,

Entre flores, frutos,

Onde prevaleciam as mangueiras,

Espalhadas pelo quintal,

Sempre limpo como o mais,

Que lhe não tomavam o tempo

Que sempre tinha

Para música, romances e poemas.

Setenta invernos,

Entre amigos e parentes,

Que não deixavam de enchar-lhe

A casa no canto da rua (na curva do rio);

Que a respeitavam sempre,

Por sua atitude coerente,

Que, por sinal, para a gente,

Transmitiu-se intensamente.

Setenta primaveras,

Vividas, uma a uma,

Com intensidade sóbria,

E sempre no convívio das rosas,

Que Rosa era você.

Setenta e quatro anos vividos,

Um pouco também sofridos,

Mas muito mais de alegrias e de amores,

Compartilhando com aqueles,

Que demonstrou, já no fim,

A forma de esperança,

Que gostaria em mim.








________________ Cláudio Rangel, 10 de Novembro de 2021.


















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